O Arco-Íris Invisível

27.10.16

Tinha natação mas decidi que não iria. Minha mãe havia ligado há pouco brigando comigo por estar "ligeiramente" atrasada para a natação, concluindo que eu não iria. Fiquei então, matando tempo na estação com o Eduardo até que em um determinado momento já não aguentávamos mais ficar em pé, com sede. 

Ao entrar no trem, almejei um lugar num dos bancos vermelhos, onde seu corpo fica do lado da janela, em sentido dorsal a direção em que o trem se locomove; deveria ser no canto. Não achei, este então "lugar perfeito". Abri meu livro O Sonho de Eva e comecei a ler enquanto ouvia música.  

Próximo á estação em que eu deveria descer, percebi que as janelas estavam revestidas por grandes e transparentes gotículas de água. Era uma das poucas vezes que não me enfurecia ao saber que estava chovendo antes de chegar em casa, na verdade já não me irrito - só ás vezes - há algum tempo, o que é um milagre.
Desci do trem, subi as escadas, atravessei a catraca e parei ao lado da saída a observar a chuva. Pensei comigo mesma "dane-se, vou ler meu livro até parar de chover". Li duas linhas e retifiquei meu pensamento, que passou a ser "dane-se, irei na chuva mesmo".

Guardei o livro cuidadosamente, num pequeno bolso dividindo espaço com um brilho labial na mochila. Preparei o guarda-chuva preto que reluzia luz na parte de dentro em sua tela prateada e o deixei num espaço da mochila que seria fácil pega-lo. Desamarrei minha camisa jeans desbotado com bolinhas da cintura, e o vesti; não era lá a blusa mais confortável do mundo pois já estava apertada em meus braços, mas eu a adorava. 

Olhei para fora da estação e procurei as gotículas que deveriam estar caindo do céu, quase não tinham mais. Meu preparo pareceu desnecessário naquele momento. Respirei fundo e segui em direção a minha casa já me preparando psicologicamente em sujar meus tênis e chegar em casa toda molhada com a água que meu guarda-chuva não conseguiria deter. Não estava chovendo eu sei, mas era chuva do final da primavera, essas chuvas nunca são previsíveis. 

Após algum tempo andando usando o guarda-chuva, já no topo da Rua Helman onde fica minha casa, percebi que as gotas tornavam-se mais pequenas e finas. Decidi fechar o guarda-chuva.

É a partir deste momento que vou descrever, porque que escrevi toda esta introdução.
  
Olhei para o horizonte e minha mente não conseguia entender a profundidade do que senti naquele momento. As minúsculas e deliciosas gotículas que caiam sob meu rosto, eram como uma pequena demonstração, de como seria tomar um banho de ducha ao chegar em casa. Logo me lembrei de que poderia estar numa piscina naquele exato momento, me precipitei a não pensar sobre isso.

Percebi também que estava havendo compartilhamento de elétrons do meu corpo com o ambiente, alterando minha temperatura, então soube que o sol estava aparecendo por trás de uma das nuvens.

Estava tocando Snap Out Of It do Artic Monkeys¹ em meu fone de ouvido. Naquele momento pude sentir todo o peso emocional de um trecho do clipe dela, quando a mulher se despe de uma espécie de macacão e mergulha na piscina. Essa sensação se apoderou de mim e entrou em harmonia com a sentida anteriormente. 

Olhei ao céu procurando algum indício de arco-iris, já que, o arco-iris aparece quando há sol pós chuva. Não aconteceu o esperado, pelo menos não cheguei a ver pois já estava quase em casa.  



Não importa o que eu tenha passado no meu dia, quando "sinto a natureza" tudo se esvai. Sentir a natureza é como sentir Deus.  

*Nomes são apenas figurativos.

¹A música:



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